Polícia

“Nós, policiais, não estamos à parte da sociedade santanense, nós fazemos parte dela”

Projeto DPPA na Comunidade de Santana do Livramento foi selecionado para 2ª fase do Prêmio Innovare, que tem como objetivo identificar, divulgar e difundir práticas que contribuam para o aprimoramento da Justiça no Brasil. A delegada titular da 12ª Delegacia Regional de Polícia de Santana do Livramento, Ana Luiza Tarouco, fala do projeto, dando detalhes sobre seu surgimento e desenvolvimento no município santanense. A DPPA é a Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento.

Surgimento do Projeto

“O projeto surgiu como uma demanda dos próprios policiais, que trouxeram essa demanda a meu conhecimento. Sentamos e discutimos a viabilidade, projetando como seria feito. Ali teve o pontapé inicial. O nome do projeto é DPPA na Comunidade, para servir, proteger e educar. O projeto teve início em 2016 com palestras na rede escolar. Começamos com palestra na zona urbana, mas já estamos ampliando o projeto para a zona rural”.

Ideias sobre o Projeto

“Temos a pretensão, a ideia de que ele abarque não só a zona urbana e a zona rural, mas as famílias dos adolescentes. Isso ainda está em estudo, já é viável, mas demanda alguns estudos que têm de ser feitos. Tivemos e temos uma parceria muito boa com o Exército, o pessoal também fez palestras para o Exército, o pessoal foi até Uruguaiana, tanto para conhecer o ambiente, para poder levar o ambiente onde os adolescentes ficam apreendidos, para levar esse ambiente para as escolas, fazendo um trabalho de conscientização, mas ao mesmo tempo para palestrar para aqueles adolescentes que estão lá dentro. As palestras têm várias temáticas, têm várias áreas, são vários policiais que atuam em temáticas como drogas, estatuto do idoso, responsabilidades, direitos e deveres, cidadania, bullying, crimes cibernéticos, violência, sexual, várias áreas, enfim...”

Peculiaridade do projeto

“O interessante do projeto é que ele não foi copiado de lugar algum, porque ele é novo dentro da instituição. Não temos notícia até o momento de que alguma outra delegacia de pronto-atendimento esteja fazendo o mesmo trabalho. É a primeira DPPA na qual seus policiais estão doando o período de folga, o que é importante de se dizer, porque na maioria dos projetos o pessoal atua durante seu serviço, sendo deslocado do serviço para fazer o trabalho. Neste caso, não. Eles atuam na DPPA em seu serviço ordinário, e extradiordinário fazem as palestras durante suas folgas, inclusive com recursos próprios. Carros, combustível, nada está sendo subsidiado pela polícia. É um ótimo exemplo de dedicação a ser seguido. Quando começou, os policiais observaram que tinham interesse em contribuir mais, além do que já contribuíam, com a comunidade em que estão inseridos. É importante observar, que, nós policiais, não estamos à parte da sociedade santanense, nós fazemos parte dela. Por isso então a importância de que queiramos colaborar com outras coisas. Em relação às ocorrências, foi observado seu aumento crescente envolvendo violência doméstica, violência escolar, uso de drogas, bullying, então de posse dessas ocorrências e estatística é que surgiu a ideia do projeto”.

Reconhecimento

“O projeto já teve o reconhecimento, tanto da sociedade santanense, com moções de apoio da casa Legislativa, os policiais já foram louvados pela própria chefia de polícia, enfim, nós estamos recebendo muito incentivo de todas as áreas, ainda mais agora com a questão do prêmio Innovare. Estamos na segunda fase, já fomos avaliados, enfim, estamos na expectativa, mas o projeto já é vitorioso, porque já transformou vidas e transforma diariamente a vida desses policiais que estão envolvidos.

Ganhos

“Vários são os ganhos para a comunidade escolar, sobretudo para o corpo docente das escolas, as palestras são uma ferramenta a mais que os professores podem se utilizar em seu dia a dia escolar para levar novos conhecimentos para dentro da sala de aula. Além disso, o próprio projeto tem um controle, um feedback, na medida em que a direção das escolas e alguns alunos também informam aos palestrantes por via escrita o que acharam, o que gostaram, o que não gostaram. É uma forma de mantermos o projeto atualizado, dentro das demandas que a comunidade espera dele. Temos um caso bastante gratificante para o projeto, que foi o caso de uma vítima de violência sexual que só identificou a violência que sofria e só teve a coragem e soube o que poderia fazer em relação àquela situação depois das palestras. Isso ficou relatado e está documentado na ata da audiência, na qual a menina referiu que só denunciou e soube o que fazer após uma de nossas palestras. Isso nos engrandece muito porque transformamos essa vida, entre outras tantas que não vão para o papel, mas se transformam vidas todos os dias”.

Ganhos institucionais

“A instituição também ganha porque esse projeto devolveu, restabeleceu a esses policiais envolvidos no projeto a sensação de pertencimento, eles se sentem hoje muito mais úteis à sociedade em que vivem. Eles não se limitam mais. São plantonistas sim, são policiais também que estão se dedicando para a comunidade, não se limitando mais, não ficam mais só no simples registro de ocorrências e vão embora para casa. Eles querem contribuir mais e eles têm feito isso, o que o tem transformado eles tanto internamente quanto externamente. Internamente no sentido de que como colegas de serviços eles se entendem melhor, porque foram obrigados a conviver, a sentar, a discutir seus problemas e estabelecer rotinas e procedimentos de trabalho, o que não faziam antes. Isso os aproximou e eu, enquanto gestora da instituição, ganho porque tenho policiais que se entendem melhor, que se sentem mais valorizados por sua comunidade e pela instituição. Externamente ganha a comunidade duas vezes: não apenas com as palestras, mas com policiais mais qualificados, porque eles estão mensalmente buscando mais qualificação para que as conversas com esses alunos sejam a cada dia mais interessantes, mais atualizadas, mais lúdicas e à medida que se qualificam, obviamente o serviço que prestam tanto na delegacia, como nas palestras ele acaba exponencialmente se tornando melhor. Ganhamos em vários aspectos e eu, enquanto gestora e coordenadora técnica do projeto, me sinto satisfeita em estar com eles”.

Qualificação

“Quando cheguei, conheci plantonistas que atuavam na delegacia de pronto atendimento, hoje já conheço policiais plantonistas que se dedicam, que se entendem entre eles. Óbvio que dificuldades sempre surgem, mas o projeto os uniu enquanto colegas, enquanto profissionais e os uniu ainda mais à comunidade em que convivem. Tudo isso pra mim é muito gratificante, já somos vencedores só pelo fato de termos sido selecionados entre mais de 50 mil projetos em todo o Brasil e por tudo de produtivo que o projeto trouxe à Polícia Civil enquanto instituição, a eles enquanto profissionais, para a comunidade tendo profissionais mais qualificados e tendo dentro de suas escolas policiais que estão doando sua folga para restabelecer a cidade, resgatar direitos, ensinar deveres, que muitas vezes adolescentes não trazem de casa. A polícia tem feito isso e ao mesmo tempo levado informação e conhecimento, que é muito importante. Nosso adolescente precisa ter conhecimento de seus direitos e deveres, precisa saber aonde pode conseguir ajuda, como o caso da vítima de violência sexual. Tudo isso é repassado nas palestras”.

Por: redacao@jornalaplateia.com - 15/07/2017 às 11:09

 

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