qui, 23 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 18-19/set/2021

Última Edição

PASSADO, PRESENTE E… O QUE VEM PELA FRENTE MESMO?

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Buenas!, 

 

Comentei noutra oportunidade que fui ao cinema logo que reabriram. Vocês devem lembrar daquelas salas imensas, costumeiramente lotadas, que hoje recebem, aos poucos, meia dúzia de gatos pingados, ávidos pela tela gigante e pelo som histriónico de outrora. O filme, dessa vez, chamava-se “Caminhos da memória”. Eu preferia o nome em inglês: Reminiscence. Naquela oportunidade, fui criticado por alguns conhecidos, apesar de deixar claro que frequentei o local respeitando todos os protocolos vigentes; prezo minha saúde e daqueles que compartilham daquele momento comigo. Nada mudou, devemos manter os cuidados, mas podemos nos aproximar de uma vida normal, inclusive com a pipoca do cinema, ela faz parte do cerimonial. 

Mas já falei disto, não vou repisar a uva amassada, quero comentar sobre o sumo que extrai desta ida ao cinema. Gostei do filme, mais preferia o nome em inglês. Aliás, uma questão de ordem: por que sempre inventam nomes diferentes dos originais? Às vezes, uma tradução literal pode não casar com nossa língua, mas neste caso, “reminiscência” representaria com maestria o filme.  

Deixe resumi-lo, para ajudar quem não assistiu ainda, pois não chegou aos streamings. Devido ao aquecimento global, várias cidades começaram a alagar. O planeta perdeu boa parte da população, houve guerras e os sobreviventes tiveram que se adaptar em cidades parcialmente dentro d’água. Como encarar a realidade? Resgatando memórias agradáveis de outrora, ora pois! O mocinho do filme, vivido pelo ator Hugh Jackman – o eterno Wolverine -, trabalha com isto, mas acaba viciando no passeio virtual e temporário de situações passadas, que perduram pouco mais de uma hora, mas que são bem mais agradáveis que a dura e caótica realidade. 

Não entrarei no restante da trama, mas chamou-me a atenção este sentimento que acomete a todos, não só na ficção: a valorização das partes boas do que vivemos, relevando os momentos desagradáveis que sempre os há. Ou, indo além, desconsiderando situações difíceis – estes decalcados na derme do córtex cerebral, logo, inolvidáveis – em busca dos momentos memoráveis, estes escondidos nos recônditos mais longínquos da memória.  

Lembrei-me do livro “O Ateneu”, de Raul Pompéia, publicado em 1888. Caso não tenha lido no colégio, vou resumir também esta obra. Sérgio é um adulto que resolve, do mesmo modo que as pessoas no filme-catástrofe citado acima, repisar seu passado através da escrita do livro. Porém, não é passado qualquer, ele resgata sua passagem pelo colégio interno extremamente rigoroso e tradicional da época. Seu pai, ao deixá-lo no colégio ainda criança, diz: “- Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta…” 

Criado com todos os mimos de uma criança abastada, Sérgio tem de encarar um mundo competitivo e cruel, que não tem espaço para acolher os tímidos e inseguros, sofrendo o chamado bullying escolar, hoje, felizmente, severamente condenado. Acontece que, mesmo assim, ao escrever o livro, já adulto, coloca como subtítulo a expressão: “Crônica de Saudades”. 

Quem leu o livro sabe o quanto foi difícil o período em que lá ele esteve. Mesmo assim, o narrador adulto, distanciado daqueles fatos, resgata suas impressões, revivendo as partes boas e, também, as ruins, daquele período de “formação”.  

Fazendo uma reflexão pessoal, todos os meus leitores (que já perdi a conta de quantos são, tal o crescimento vertiginoso, segundo o Ibope e o Datafolha) concordam que vez ou outra são acometidos por certa nostalgia perene de momentos complexos, mas edificadores de caráter, segundo nossa própria interpretação.  

O passado faz parte de nós, verdade inegável. Contudo, quando fazemos tentativas de “viver no passado”, perdemos um tempo precioso para aproveitar o presente. Aos 16 anos trabalhava na Caixa Estadual e tinha um chefe que ficava o dia todo narrando aventuras amorosas, conquistas diversas, viagens longas e vitórias futebolísticas, deslumbrando o estagiário inexperiente. No presente, o que ele fazia? Era um servidor público dos clássicos, batia ponto, datilografava seus relatórios (sim, sou do tempo da máquina de escrever, espantados leitores) e ia para casa encontrar sua esposa e os dois filhos da família tradicional brasileira. 

Esta tentativa nostálgica de reviver um passado saudoso e suas partes benéficas faz parte de nossa formação e do viver, precisamos disto. O que não pode, a meu ver, é deixar o passado tomar conta do presente, nos impedindo de viver o que se nos apresenta à frente.  

Último exemplo literário de hoje, vem de “Dom Casmurro”, de 1899, o meu livro favorito entre os favoritos (aliás, ele merece uma crônica exclusiva, não é?). No segundo capítulo, Bento Santiago, o narrador que tem mais de 50 anos, afirma, ao justificar a construção de uma casa idêntica à que ele passou sua infância e juventude: “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui.” Ele próprio explica o seu fracasso diante do incontrolável atropelo do tempo: “…falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” 

Reviver bons momentos em nossa memória, seja literária ou cinematográfica, faz parte do existir como humano. Perder-se nestas memórias, como os personagens citados nesta modesta crônica, é desperdiçar o bem mais valioso e escasso que temos, o tempo… 

 

P.S. Nesta semana, assisti a uma palestra no “Palácio dos festivais”, a chamada casa do cinema no Brasil, em Gramado. Um filme passou em minha mente enquanto lá estive…