qua, 22 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 18-19/set/2021

Última Edição

RELIGIÃO, POLÍTICA E FUTEBOL NÃO SE DISCUTEM. PORÉM…

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Cartum de QUINO, o famoso pai da Madalda

Buenas!,

Aprendi desde criança ou, ao menos, minha mãe tentou me ensinar, que certas coisas não adianta perder tempo discutindo. Eu, do alto de minha teimosia juvenil, achava que ela não devia perder tempo tentando me doutrinar. Hoje sofro do mesmo mal com meus filhos, que discutem comigo, usando frases similares às que eu usava no século passado diante das tentativas de imposições maternas. Não há como esquecer dos versos de Renato Russo: os pais são crianças, como eu vou ser quando eu crescer… 

O assunto que me traz até aqui parece não ter relação com minha introdução, mas irei mostrar-lhes que há, não somente na minha cabeça, acreditem. Discussões sem fim e sem solução, como fazia quando filho e agora como pai, foram ampliadas pelo atual momento em que vivemos. Ficar em casa ou atrás da tela de um celular, não importa o local em que estivermos, nos dá segurança para expor opiniões diversas, recheadas de certezas absolutas, justificadas por frases como: vi um renomado blogueiro dizendo isto que estou repetindo agora sem consultar nenhuma fonte oficial, afinal, as fontes oficiais não são confiáveis como meu blogueiro que também está em casa sentado na cadeira pescando assuntos nas redes. Que momento diferenciado, hein… 

Mas já falei noutra oportunidade sobre as verdades das redes, que proporcionam subsídios para consolidar teses das mais estapafúrdias e sustentam convicções infundadas. Gostei de um meme que circulou esta semana nas redes: hoje vou deixar de ser especialista em infectologia para tornar-me especialista no Afeganistão. Quem frequenta as redes sociais sabe do que estou falando. Provocados pela ascensão do Talibã e suas diretrizes radicais, pipocaram teorias das mais esdrúxulas, além de comparativos inexequíveis com países ocidentais.   

Muitos culparam o presidente americano pelo domínio do Talibã e pelo retrocesso dos direitos civis naquele país. Outros tantos, compararam com esquerda e direita aqui no Brasil e nos EUA, entretanto, penso que devemos ir um pouco além, não discutindo religião e política, mas conhecendo um pouco dos fatos históricos que formaram aquele povo do deserto. 

Num apanhado rápido, sabemos que o Talibã – que significa estudantes, no caso, do Alcorão, o equivalente a “Bíblia” islâmica, e da Xaria, seu código penal – é um grupo paramilitar que dominou o país, cuja população vive em regime tribal e pastoril em um território isolado e semi-desértico, disputado por impérios e que resistiu ao domínio por milênios. Implementaram, novamente, um regime baseado em uma interpretação rigorosa das leis religiosas em que acreditam.  

Já leram esses livros? Eu também não, mas li alguns autores que os estudaram. Uma das melhores análises da cultura humana encontrei no livro “Os criadores”, de Daniel J. Boorstin. O autor trata da criação em geral, começando pelos deuses e chegando nas religiões. Ele afirma que uma das vertentes islãmicas acredita que o livro idealizado por Maomé no século VII, na verdade não foi feito por mãos humanas, mas sim, ele “É”. Ou seja, ele surgiu, segundo crenças, divinamente.  

Certamente os leitores já ouviram falar de outra crença bastante famosa: caso o fiel entregue sua alma à causa jihadista (outra das tantas linhas de interpretação do Islamismo), receberá a dedicação exclusiva de setenta e duas virgens ao ingressar sob o som de trombetas no paraíso. Como questionar interpretações religiosas como essas? Não devemos esquecer que, do outro lado do balcão, há conceitos centenários que vão muito além do que nossa vã filosofia poderia supor, como disse o bardo britânico.   

Estas não são interpretações isoladas de países igualmente isolados e desérticos. Acreditar, por exemplo, que devemos reencarnar em busca da evolução, que existem limbos e que, no juízo final, iremos estar ao lado do criador, são ideias coletivas que dominam o pensamento ocidental. Falo isso para termos um parâmetro, não como comparativo ou demérito de nenhuma fé.  

Não importa aqui se concordo ou não com alguma delas ou com nenhuma. Aliás, penso que não nos cabe julgar culturas tão diferentes daquela na qual estamos inseridos, inclusive na questão política. Nem o país mais poderoso do mundo conseguiu impedir o domínio territorial do Talibã e suas incongruências – vistas da ótica ocidental, nunca esqueçam dos filtros de interpretação – por que cargas d’água os doutores em redes sociais acreditam que podem ostentar teses a partir de suas teorias baseadas em vídeos das redes sociais? 

Há um cartoon que, na minha modestíssima e sempre alardeada opinião, ilustra bem os dilemas que as religiões e suas diferenças culturais nos acometem. Dois homens estão sentados em um banco de praça quando um deles comenta: “as três grandes religiões adoram a um mesmo e único Deus, curioso, não?” Porém, ele não para por aí, segue questionando seu interlocutor: “por que insistem em seguir sendo três, se Deus é uno?” Ainda insatisfeito, resolve ampliar: “Se eu fosse Deus, me perguntaria: não será que cada uma destas religiões amam mais a si que a mim?” 

Musa dos questionadores, admita: quando Quino, um dos maiores criadores de cartuns do mundo, pai da genial Mafalda, pincelou estas palavras, estavas a abençoar seu nanquim, não é?  

Não pretendo ficar a discutir futebol ou política, muito menos as crenças religiosas alheias, estando elas do outro lado do mundo ou na casa de minha mãe. Elas são fruto de paixões e, por isto mesmo, superam a racionalidade humana. O mais adequado, que não é fácil fazer, é sentar em um banco de praça e pensar por nossa cabeça, mesmo que nossos interlocutores ou filhos não queiram nos ouvir. Saibamos nos bastar!