dom, 26 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 25/09/21

Última Edição

NOVOS TEMPOS, MORADIAS NOVAS…

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Buenas!, 

 

Alberto vai visitar seu amigo Carlos, eles não se encontram presencialmente há mais de ano, desde o início das restrições pandêmicas. Tudo por mensagem ou vídeo. Marcaram no apartamento de Carlos, que morava no centro histórico da cidade, ao final da tarde, para comemorar o fato de ambos estarem vacinados. Alberto, que trabalhava em uma estatal, não sabia como andavam os negócios do amigo, que atuava desde sempre como vendedor autônomo. 

O porteiro deixou Alberto entrar, mal levantou uma sobrancelha, nem perguntou onde ia. O prédio era antigo, tinha centenas de apartamentos, e Carlos morava no último andar. Após descer do elevador principal, se depara com uma placa de “aluga-se” na porta do amigo. Confere o número, vê que está no lugar certo, inclusive encontra o olho grego que sempre esteve pendurado na porta, desde que ele mudou para cá. Dizia que espantava maus agouros, cobradores e namoradas ciumentas. Tenta a campainha apesar da placa, em vão. 

Retorna, desta vez pelo elevador de serviço. Antes de apertar o botão para descer, triste pelo desencontro, tem a atenção raptada por um barulho, parecendo um vazamento dentro do elevador. Escuta uma cantoria brega, típica dos desafinados que frequentam karaokê. Carlos?, vocifera espantado. Alberto?!, reage uma voz por detrás de uma fresta, quase um buraco retangular na parte superior da parede interna, por onde Alberto pode ver, agora, a água parando de jorrar.  

Nisso, de um canto estreito do elevador – um espaço praticamente imperceptível para quem entra e sai dessa caixa normalmente o mais rápido que pode, o eterno medo dele trancar ou cair – surge, enrolado em uma toalha e com uma touca plástica protegendo os cabelos outrora compridos, Carlos. 

Como está? Há quanto tempo, tu não mudou nada, hein, Alberto!, disse com aquele sorriso de vendedor de panelas que tanto se orgulhava. Amigo, como está, bati no apartamento, tinha uma placa de aluga-se, o que aconteceu? Eu não te vi, estava tomando banho. Aqui, no elevador? Sim, o que achou? Estou morando no elevador!, falou Carlos, enquanto se secava e pegava roupas de outra portinha, quase oculta na parede lateral. 

Não compreendi, Carlos, afirma, com espanto. Sim, amigo, faz um tempo. desculpe não ter te avisado, pedi ao porteiro para te comunicar, mas sabe como é, estão sempre desatentos… Como assim “está morando” no elevador? Não tem espaço, as pessoas entram e saem. Que nada, o elevador de serviço é antigo, melhor, “vintage”. Ninguém mora no elevador!, protesta, quase gritando, Alberto. 

Está por fora, mesmo, tu sempre foi meio desatualizado, muito tradicional, né Beto. É o que há de mais moderno em matéria de desapego. “Menos é mais!”, dizem os arquitetos do futuro. Lembra dos antigos JK, também chamados de quarto-e-sala? Pouco antes da pandemia, os apartamentos novos pareciam caixas de fósforo, não é? Pois bem, o conceito só fez evoluir neste ano bicudo, valorizando cada vez mais o minimalismo. O espelho, que esconde a cozinha, dá amplitude ao ambiente. Sem contar que é um projeto extremamente ousado e, acima de tudo, nacional. Brazucas sendo pioneiros e criando moda mundo afora. Niemeyer estaria orgulhoso! 

Parceiro, se estivesse com falta de grana, falasse comigo, poderia ter pensado em algo, sabe que moro em um apartamento mediano, daria guarida por um tempo para o amigo. Nem te preocupa, Alberto., falou Carlos, sorrindo como sempre. Sim, não há dúvidas que a pandemia gerou uma crise, isso fez as vendas reduzirem. Porém, com a grana do auxílio emergencial, contratei um “coach” e ele me ajudou a fazer um “mindset” na minha existência. Eu, após fazer um “benchmarking” das minhas escolhas, constatei que sempre fui um exagerado. Por que morar em um apartamento grande, cheio de móveis e roupas, quando só preciso de um canto para me encostar, uma muda de roupas, três cuecas e dois pares de meia, além de uma escova de dentes e um pente? 

Mas é um elevador, Carlos! Isto é insalubre!, Que nada… É arejado, tem movimento, conheço pessoas. Além do que, para quê um apartamento cheio de coisas se passo o dia na rua, trabalhando? Mas, ainda assim, é muito pequeno, fechado, não ventila nem entra sol. 

Que nada, é um espaço espetacular. Cada vez mais procurado. O síndico, que está alugando o imóvel para mim, já disse que tem fila de espera, caso eu saia. Aliás, caso tenha interesse, soube que vagou o elevador principal, dizem que tem até suíte e hidromassagem. Mas eu subi por ele e não vi nada!, fala o estupefato Alberto, já exausto de tanto argumentar. 

Exatamente por estar vago não viste nada. Na vida pós pandemia temos de ser práticos, afinal, sobrevivemos. Tudo é feito sob medida, diferente do meu, que teve de sofrer uma reforma. Antes de mim, morou uma família com dois filhos. Criança não cuida nada, sabe como é.  

Quer conhecer e avaliar uma mudança para estas redondezas?