qua, 22 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 18-19/set/2021

Última Edição

AS MÚSICAS DE PROTESTO E OS DIAS ATUAIS

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Nós, que temos algumas toneladas de idade pesando sobre nossas espáduas, ou quem conhece um pouco da nossa história contemporânea lembramos do que foram e fizeram as músicas de protesto nesse e por esse Brasil.  

Caso alguns de meus leitores tenham nascido ao redor da virada do século, saibam que esse tipo de música era utilizada por artistas para tecer críticas sociais, mais ou menos o que qualquer um faz hoje em suas redes com pouca ou quase nenhuma precisão, a maioria sem arte alguma. Sendo benevolente e peneirando bem, podemos encontrar algumas pepitas douradas no rio caudaloso dos aplicativos.  

Pois bem, eu não estava lá, mas me contaram e li sobre os anos 1960 e 1970 (está bem, confesso, nasci em 1973, mas considero que passei a enxergar o mundo além do meu umbigo somente após 1980, quando já era um jovem sagaz), quando tivemos uma leva de músicas de protestos. Era um período profícuo para tanto, começando pelo estrangeiro. 

Os EUA, que era e mantém-se até hoje como nosso modelo cultural, econômico e político, encaravam a guerra do Vietnã que, se teve alguma utilidade, foi fomentar protestos, músicas e filmes. Quem não assistiu “Platoon” tem uma lacuna do tamanho do rio Mississippi em sua formação cinematográfica.  

Sei que o assunto hoje é musical, mas as ferramentas midiáticas se entrecruzam. Muitos não assistiram o filme “Hair”, mas dançaram ao ritmo do clipe da música “Aquarius”, um clássico que dominou a imaginação de uma geração libertária. Para citar mais uma música de protesto ianque, recomendo com todo o fervor “Hurricane”, de Bob Dylan. Aliás, quem assistir o filme homônimo com Denzel Washington e não derramar uma cachoeira de lágrimas indignadas pelas injustiças promovidas contra o boxeador Rubin Carter, deve imediatamente procurar uma terapia.  

Por estas paragens vivíamos tempos de festivais artísticos transmitidos pela TV em preto e branco. Ali surgiram Chico Buarque, ainda com a isenção da Bossa Nova, e Caetano, que explodiu a multidão com músicas como “É proibido proibir”, que já diz a que veio no título. Ele e Gilberto Gil incomodaram tanto que conseguiram ser presos e exilados pelo governo militar, voltando anos depois, como tantos outros brasileiros.. 

As pessoas podem evoluir e Chico provou isto quando entrou de cabeça nas músicas de protesto com “Apesar de você”. Usou de uma metáfora amorosa para superar a censura e dizer tudo o que estava engasgado na garganta dos que não coadunavam com a política desenvolvida nos anos 1970. A frase: “Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão” é de uma maestria tão grande quanto simples. Diria mais, extremamente contemporânea, não concordam? 

Entretanto, o hino entoado por todos os jovens ditos rebeldes de então era “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré. Quando ele diz: “Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não”, nos autoriza a viver uma ilusão de que somos todos iguais, não importa em que linha política militamos, não acham? No entanto, é óbvio que sua visão era de um mundo utópico e focado no trabalhador, no chamado proletário, termo que hoje nem recebe atenção.  

Nos anos 1980 vieram as grandes bandas, como a Legião Urbana, que decalcou em nossa derme a eterna pergunta na música: “Que país é este?”. O questionamento que surgiu antes da campanha das “Diretas Já” até hoje não foi respondido, por maior que seja a esperança que toma conta da gente a cada nova eleição. Os políticos – diria também, os eleitores – nos obrigam a entoar trechos em altos brados, como esse: “ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”…

Nos final dos anos 1980 irrompe com força os grupos de rap, como os Racionais MC’s que, novamente seguindo modelos americanos, dão voz à vocalistas como Mano Brown, que protesta contra a situação social em que vivem as pessoas esquecidas nos guetos e favelas das grandes cidades brasileiras. 

Poderia citar muitas outras, mas pergunto: e hoje, temos o quê? Deturpações das letras sutis e do estilo “bon Vivant” da Bossa Nova,  trocados pela malícia do funk carioca. Ou ainda as chamadas músicas de sofrência, que também já tiveram a alcunha de sertanejo, sertanojo universitário ou coisa que o valha. Até me perco nesses nomes. Mas, protesto que é bom, nada… 

Quem sabe, com essa carência, possamos relembrar e valorizar cantores como Geraldo Vandré? Não comentei antes, mas saibam que ele foi advertido pelos militares para não voltar ao palco, porém, cheio de coragem, defendeu seus ideais, encarou a plateia e a ditadura militar. Saiu dali preso e foi torturado covardemente. Alquebraram seu corpo e moral, mas músicas como a sua ainda ecoam por essa terra sem dono, felizmente.  

Bora ouvir um LP dos antigos ou buscar nas redes algumas destas músicas e lembrar que um dia tivemos músicas de protesto, quando não aceitávamos desgovernos em silêncio…