qui, 23 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 18-19/set/2021

Última Edição

O FRIO E AS ANDANÇAS DE NOSSOS CALÇADOS…

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Buenas!,

Estamos às portas do inverno abaixo do trópico de Capricórnio, o chamado sul do Brasil, do qual sou nativo e habitante contumaz, não obstante algumas ligeiras passagens pelos territórios tropicais desse país continental. Sim, caros leitores que não são patrícios dos pampas em que domina o vento Minuano, faz frio por aqui! É verdade que em ondas cada vez menos regulares devido ao aquecimento global, mas faz frio de renguear cusco, como costumamos dizer – que significa: fazer cachorro mancar, caros brasileiros.  

Ainda bem que nenhum dos meu leitores finge que essas ondas alternadas de calor excessivo e frio intenso são somente conspirações de ecochatos, como dizem alguns terraplanistas. Quem tem mais de quarenta anos e têm boa memória não esquece do tempo em que corria solto na rua e torrava no sol ficando pretos, contudo, nunca queimados.  

Lembro de quando era criança e uma tia minha mentia a idade, dizia que tinha dezoito aninhos quando já era uma trintona e fazia receitas caseiras de bronzeadores com óleo disso e essência daquilo, esparramado-se no pátio da casa de meus avós. Hoje em dia, nós não conseguimos ficar no sol por muito tempo sem estarmos besuntados por protetor solar fator 450, inclusive em dias ensolarados do inverno. E quem tem trinta não é coroa, é um brotinho! 

Divergi do assunto que me trouxe aqui, que são o frio e as roupas. Muitas pessoas dependem das campanhas do agasalho desenvolvidas pelos governos e entidades beneficentes para amenizar os efeitos gélidos do inverno e qualquer doação é relevante para quem precisa de um pouco de calor humano, mesmo que indiretamente, mesmo que através de uma roupa boa que não seja mais utilizada por quem doa, pois está em condições melhores, financeiramente falando.  

Eu cá do meu canto costumo socializar roupas que começam a sobrar desde sempre. Devido aos efeitos pandêmicos, algumas antigas começaram a faltar no tamanho. Escrevendo isso, veio-me à lembrança os tempos de outrora, daqueles que não voltam mais, quando almejava com todo o ardor da adolescência usufruir das roupas e dos calçados de meu pai.  

Não há viva alma nascida nesta terra fria que não tenha derramado uma lágrima furtiva diante da música “Guri”, de César Passarinho. No trecho de abertura, quando ouço: “Das roupas velhas do pai”, sou arremessado à sensação de circular pela casa com os seus gigantescos sapatos ou de quando fui no colégio com seu pala de lã quase arrastando no chão, também chamado em outras paragens de poncho.  

O momento nostálgico irrompeu em uma conversa com uma colega de trabalho que ostentava toda orgulhosa uma das tantas botas herdadas rotineiramente de sua mãe, afinal, calçavam o mesmo número. Não tive a mesma sorte, pois, quando empatamos os pés, ele não mais habitava conosco por divergências com minha progenitora, sua esposa à época. Separações são acontecimentos tão comuns em famílias tradicionais, no entanto, isso tirou-me o direito à herança natural do vestuário ao qual fazia jus,  já que sou o primogênito. 

Entretanto, mesmo com muitas pessoas insistindo nos dias de hoje em contrariar a lógica, eu e meus trinta e seis leitores – estabilizamos o número – sabemos que o mundo é redondo (como fiz questão de frisar lá acima) e surpreendente. Nos últimos anos, quando está esfriando e resolvo doar algumas roupas que não me servem ou não uso mais, quem é o principal felizardo? Superei sua estatura e numeração de calçados, ainda assim, repasso muita coisa para meu pai. 

Não é que ele passe frio ou necessidades, porém, diferente dos seus filhos, evitou pensar na previdência financeira e resolveu contar somente com a providência divina, que nem sempre olha para todos com a mesma benevolência.  

Muita gente fez cálculos similares, chegando a resultados não tão satisfatórios quanto previam, não contando com a potencialização de fatores adversos. Não podemos esquecer que a matemática da vida não é uma ciência exata, mas podemos antecipar alguns desenlaces analisando os números que acrescemos à nossa equação enquanto fazemos cálculos em nosso quadro biográfico. 

Nós que fomos um tanto previdentes ao longo da vida não devemos ser responsáveis por aqueles que foram incautos ou azarados. Contudo, fazer o bem é essencial para os cristãos. E, para os descrentes, acabam por respeitar a terceira lei de Newton: toda ação garante uma reação igual em sentido contrário, mantendo a sequência das metáforas numéricas. 

Como outros tantos beneficiários de doações de agasalhos e calçados que todos podemos compartilhar, meu pai, com seu inexorável sorriso, apesar das intempéries dos invernos que lhe assolaram ao longo da existência, diz que um furo a mais no cinto e um aperto no cadarço garantem a aproximação das gerações.  

Não são bem essas palavras, provavelmente eu devo ter enfeitado com um pouco de literatura, pois, com certeza, esse repasse hereditário invertido de vestuário aquece não só o corpo, mas alguns corações moles…