qua, 22 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 18-19/set/2021

Última Edição

NOMADLAND

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp

O grande vencedor do Oscar de 2021 aborda questões relevantes e possui diálogos importantes ao decorrer de sua narrativa. Nomadland é de Chloé Zhao e Frances McDormand e só isso já tem uma importância tremenda. Com suas indicações e vitórias no maior prêmio da Indústria Cinematográfica ambas fizeram história. Chloé se tornou (apenas) a segunda mulher a vencer o Oscar na categoria de direção, lembrando que essa é uma premiação que está em sua 93ª edição. Para que salte aos olhos, isso deve ficar claro, de todas as edições que ocorreram nos últimos noventa e três anos, apenas duas vezes uma mulher venceu, além disso, foram indicadas apenas sete mulheres ao longo de toda a história. Isso é um fato muito triste e demonstra claramente como o domínio masculino impera em praticamente todas as áreas, inclusive no cinema, algo que vem mudando, mas que precisa ser sempre lembrado para que essa estatística deixe de ser comum. 

Após o colapso econômico de uma cidade empresarial na zona rural de Nevada, e após passar pelo sofrimento de perder o marido, Fern (Frances McDormandfaz de sua van uma casa, e parte na estrada explorando os Estados Unidos, realizando trabalhos temporários e levando uma vida fora da sociedade convencional como uma nômade moderna. Com uma premissa minimalista, orçamento baixo e protagonismo de apenas um personagem, Nomadland pode não ser um filme “para todo mundo”. Não por propor uma ideia experimental e que deixa questões em aberto como forma de deixar o espectador sem compreender o que acontece, mas por se tratar de um filme de vivência, ou seja, um filme que se propõe a mostrar a rotina de uma pessoa estabelecendo uma simples ideia por trás disso. Constrói, dessa forma, reflexões tão sutis, que por não serem explícitas, possuem uma delicadeza notável e aberta a interpretações. O filme não conta com grande cenas movimentadas e de cortes rápidos, que costumeiramente, são recursos usados para deixar o público mais empolgado. O filme vale-se de uma proposta diferente. Através da vivência da personagem na situação em que ela se encontra, vamos, aos poucos, nos conectando com esse estilo de vida diferente e essa abordagem foi o que garantiu todos os elogios e prêmios que o filme recebeu. 

Eu disse que esse é um filme de Chloé Zhao e Frances McDormand, e isso é óbvio, mas gostaria de explicar a razão dessa afirmação. Começando com a diretora, Chloé Zhao é muito competente e precisa ao conduzir o filme. Não só isso, ela produziu, dirigiu, escreveu o roteiro adaptado e ainda editou Nomadland, recebendo indicação ao Oscar nas quatro categorias, vencendo as duas principais de Melhor Filme e Melhor Direção. Isso se deve a sua sensibilidade ao contar a história. Ao mostrar as vivências de FernChloé intercala com relatos de outros personagens, intercala com a passagem de tempo, mostra diversos personagens que se encontram na mesma situação de Fern, mas por razões diferentes. Há quem não tenha outra opção ao não ser viver como nômade, há quem prefira viver assim, longe da intensidade da vida urbana, há quem tenha escolhido essa forma como uma despedida da vida, há quem queira conhecer o país e decidiu experimentar esse estilo de vida. E ao mostrar esses aspectos que se confundem com a vivência da personagem que acompanhamos, o resultado é um filme intimista mas que traz reflexões importantes. 

A outra grande mulher por trás desse projeto é Frances McDormand que além de dar vida à personagem principal, também produz o filme. Vencedora de três prêmios da Academia na categoria de Melhor Atriz, agora também possui um prêmio na categoria de Melhor Filme. E todos os elogios talvez não sejam suficientes para destacar Frances, não apenas por esse filme, mas por toda a sua carreira. É uma das atrizes mais premiadas, uma verdadeira estrela de cinema e isso simplesmente some quando encarna sua personagem. Longe de grandes maquiagens e figurinos exuberantes, Fern, sua personagem, mostra, em closes, suas rugas e suas expressões mais sutis, porque Frances encarna a vida de uma nômade de uma forma tão natural que, acompanhado com a ideia do filme trazer os personagens reais do livro que serve como base para o filme, ou seja, nãoatores interpretando a si mesmos ou uma versão de si mesmos, com o tempo, esquecemos a grande atriz que ela é e ela se confunde com os outros personagens. Essa sutileza acaba ganhando um tamanho absurdo, pois é o que torna Nomadland mais próximo de quem assiste.