qua, 22 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 18-19/set/2021

Última Edição

PAULO GUSTAVO

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Ao mesmo tempo que preciso escrever esse texto, é muito doloroso fazê-lo. Quando pensava nas palavras para descrever Paulo Gustavo sempre vinha à minha cabeça mensagens de apoio que eu gostaria de enviar pra ele, por intermédio do Instagram, quando ele saísse do hospital e voltasse pra casa. Palavras que seriam de incentivo pela sua luta que durou quase dois meses e o mais importante, ressaltar a importância do seu trabalho para arte e para a cultura brasileira. Mesmo essa mensagem não sendo mais possível, quero, primeiramente, falar da arte, antes de falar do artista. Esse texto não é sobre cinema. Poderia ser. Poderia citar seus grandes trabalhos no cinema, seus sucessos inacreditáveis de bilheteria, e sobre ser protagonista da franquia de maior sucesso no Brasil, mas nesse texto falarei da arte e do artista que nos deixou após enfrentar uma longa batalha contra a Covid-19 e suas complicações.

É muito difícil criar o “novo”. Nossas ideias aparentemente inovadoras são, na verdade, rascunhos de coisas que já foram ditas ou pensadas. As inspirações que nos acometem, provavelmente, receberam influência de outro lugar e, por conta disso, é difícil determinar a origem das coisas da forma como conhecemos. Agora, por que estou falando isso? Porque mesmo querendo ser original em meus textos, quase tudo que eu escrevo tem influência de outra coisa, principalmente da arte. A arte existe pra quê? Qual sua função? Eu poderia citar Nietzsche e dizer: “A arte existe para que a verdade não nos destrua”. Posso talvez recorrer ao dicionário: “Arte – substantivo feminino. 1. Habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional. 2. Conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica”. Eu prefiro outra definição, inspirada pelo programa “Greg News” apresentado por Gregório Duvivier na HBO. A arte é a forma que o ser humano inventou pra gente lembrar que vamos morrer, mas mais do que isso, é uma forma de superar a morte e valorizar a vida.

Lembre-se que você vai morrer. Dizendo isso, no programa, Gregório lembra e cita diversos livros, filmes, pinturas, músicas e artistas, todos excelentes, que falam da morte e que servem basicamente para que a gente não esqueça que pode e que vai morrer. Quando o ser humano se depara com esse tipo de coisa, não se torna mais mórbido ou deprimente, mas começa a valorizar a vida, e a arte serve pra isso. Lidar com a morte não é fácil, é um momento de muita dor e tristeza, mas repare que a arte te ajuda nesse processo. E foi o que Paulo Gustavo construiu. A arte que ele propôs, através da comédia, não lida diretamente com a morte, mas ele deixa um legado. Esse legado é histórico e será eterno, mesmo muitos anos após sua morte. E foi com suas piadas, filmes, peças de teatro, especiais na televisão, que ele, através da arte, não irá morrer jamais, pois está eternizado pelo seu trabalho e sempre será lembrado por isso. Paulo Gustavo, como todo artista, está apoiado em diversos outros artistas que já morreram antes dele e que, da mesma forma, deixaram para a arte um conjunto de obras para serem lembradas.

Quando temos uma perda tão dolorosa de um artista, a vida dessa pessoa deve ser lembrada, e não porque ele é mais importante que as outras pessoas, mas porque um grande artista, através de sua arte, atingiu, se relacionou e foi querido por pessoas que ele sequer conheceu. Eu não conhecia Paulo Gustavo, mas ele chegou até a minha casa com “Minha Mãe é Uma Peça” ou com “220 Volts” e eu ri e me emocionei várias vezes com ele. Quem conheceu Paulo Gustavo garante a pessoa genial que ele era e como ele era capaz de trazer alegria onde estivesse. Nas palavras de Fábio Porchat: “É a pessoa mais engraçada que já conheci na minha vida. E não estou nem dizendo dos personagens, não. Estou falando ele pessoalmente, sentado na mesa do bar. Quando a gente saía junto era engraçado. Eu saía leve. Eu ria sem parar. Ele era engraçado contando as histórias dele, dos outros, interagindo com o garçom, comigo, com as pessoas. Estar com ele era isso, estar num ambiente que não tinha como nada dar errado. Eu acho que é por isso que o Brasil sentiu tanto a perda dessa pessoa. Porque era um Brasil que deu certo. Paulo Gustavo era um Brasil que a gente quer. O Paulo Gustavo é a pessoa que mostrou pra gente que, apesar de tudo, dá pra gente rir e ser feliz.” Perder uma pessoa assim é uma dor muito grande, justamente porque com sua arte ele trazia um pouco dessa alegria pra cada pessoa que o assistia. É fundamental que se honre Paulo Gustavo e todos os artistas que nos mostram a importância de valorizar a vida. Ele não foi uma perda isolada, mais de 400 mil pessoas morreram dessa mesma doença e cada uma dessas pessoas devem ser lembradas por suas famílias, e o quanto essa pessoa significa para aqueles que continuam vivos, afinal é esse o jeito de não se render pra morte, pois essas pessoas seguem vivas dentro daqueles que os amam.

E por falar em amor, deixo uma mensagem dita pelo próprio Paulo Gustavo, no especial de fim de ano do programa 220 Volts que resume quem o Paulo era e o que devemos buscar através da arte, porque, segundo ele, amor é arte: “Tanta coisa que eu queria dizer antes de ir embora, eu vou tentar, tá? Primeiro que esse ano serviu para mostrar que a gente não vive sem a graça, sem humor. O humor ele salva, transforma, alivia, cura, traz esperança pra vida da gente. Essa pandemia também deixou bem clara a importância da arte nas nossas vidas. Esse ano foi difícil? Foi. E foram as artes dramáticas, a música, o cinema, a dança, a cultura em geral que nos ajudaram a seguir em frente tornando tudo um pouquinho mais leve. Fico muito feliz e orgulhoso de ser artista e mais ainda da comédia ser tão forte em mim. Eu faço palhaçada, você ri, eu fico com o coração preenchido aqui. Eu me sinto realizado de estar conseguindo te fazer feliz. Rir é um ato de resistência. A gente agora está precisando dessa máscara chata pra proteger o rosto desse vírus, e, infelizmente, essa máscara esconde algo muito precioso para nós brasileiros: o sorriso. Ele tá tampado, tem que ficar tampado, mas ele existe. E ele não vai deixar de existir, a gente não vai deixar de sorrir, não vai deixar de ter esperança. Bom, um Ano Novo vem aí, com novos desafios, mas com a promessa da gente poder sair na rua de novo. Eu tô louco pra voltar ao teatro, voltar a viajar o Brasil, encontrar vocês. Enquanto isso não rola, vamos todos nos cuidar, cuidar da família, dos amigos, dos vizinhos, dos próximos, dos distantes, de todo mundo. Enquanto essa vacina tão esperada não chega pra todo mundo, é bom lembrar que, contra o preconceito, a intolerância, a mentira, a tristeza, já existe vacina: é o afeto, é o amor. Então diga o quanto você ama a quem você ama. Mas não fica só na declaração não, gente. Ame na prática, na ação. Amar é ação, amar é arte. Muito amor, gente. Até logo.” Muito obrigado, Paulo Gustavo! Você será sempre lembrado.