dom, 28 de novembro de 2021

Jornal A Plateia Digital - 27-28/11/2021

Última Edição

QUERIA TER VIDA PARA PODER VER TODOS OS FILMES

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A Vida é Bela – La Vita è Bella – 1997 – Roberto Benigni

Você já se dedicou a um estudo e teve a sensação que não sabe nada sobre o assunto? A medida que aquilo começa a fazer parte da sua rotina e você estabelece que quer aprender sobre determinado assunto e começa a buscar meios para isso, acaba se dando conta da quantidade inestimada de conteúdo, incapaz, até, de realizar em uma vida inteira, o estudo sobre o que se propôs. Já sentiu esse conflito? Não posso ver todos os filmes, nem ler todos os livros, não é mesmo? Essa primeira sensação, pra mim, é bastante cruel. Você percebe o seu tamanho frente ao tamanho do estudo e conclui que será impossível concluir todo o conteúdo desejado, afinal existem outras tantas pretensões, tantas outras coisas que se transformam e esse objetivo se torna ainda mais distante. Ultimamente, refletindo sobre o assunto, percebi que isso não é totalmente ruim e, quem também tem essa mesma impressão, não deve se sentir abalado por conta disso.

Don Juan DeMarco – 1995 – Jeremy Leven

Poderíamos entrar em questões filosóficas e discutir nosso papel no mundo, nossa utilidade, a razão de estarmos aqui e qual o sentido para tudo o que vivemos, inclusive sou bem aberto a estas conversas e aconselho que todos sejamos, mas não acho que encontraríamos soluções práticas às nossas indagações. Não pela possibilidade de encontrar ou não, mas pela dificuldade em si, é tudo muito complexo, enfim. Mas o que teria o cinema a ver com tudo isso? Na minha busca incessante para descobrir o que for possível enquanto eu viver sobre essa arte, me deparo com algumas coisas nesse sentido. A mais óbvia é que não tenho vida para assistir a todos os filmes que desejo. E isso que a história do cinema é recente em comparação às demais artes e, mesmo assim, não há essa possibilidade. Tente imaginar um estudo sobre artistas e ver todos os filmes do Leonardo DiCaprio. Bastante possível. Mas aí você descobre que ele trabalhou com Martin Scorsese e decide ver todos os filmes do Martin. Assim você resolve que vai ver todos os filmes Americanos, porque Scorsese é americano. Então porque parar nos Estados Unidos, vejamos todos os filmes Brasileiros, Alemães, Franceses, Japoneses, Nigerianos… Impossível.

Beleza Americana – American Beauty – 1999 – Sam Mendes

O que se extrai então, se não é possível aproveitar e compreender toda a arte como se gostaria que fosse feito? Como posso me considerar amante do cinema sem nunca ter visto um filme de D. W. Griffith ou Alice Guy Blaché? Como serei eu, um estudante de cinema e nunca vi um filme Colombiano ou de Hong Kong? E isso se aplica a praticamente qualquer área de estudo. Sempre há o que se aprender, um lugar mais longe a se alcançar. O que se extrai, seja qual for o estudo que você se propôs, é beleza! É poesia (outra forma de arte). Talvez nunca cheguemos às respostas que nos movem, mas se aproveitarmos a beleza da natureza, a beleza da vida e a beleza que a arte é capaz de proporcionar, tenho certeza que será uma vida que terá valido a pena. Vivemos tempos difíceis, com muita coisa ruim acontecendo em todo lugar do mundo e, por vezes, nos sentimos impotentes de agir e não queremos seguir adiante, nem lutar por aquilo que entendemos ser importante. Não é fácil! Não estou dizendo que é fácil viver, nem que nos encontramos em uma situação às mil maravilhas, mas estou propondo encarar a vida com esse pensamento, disposto a encontrar a beleza.

Titanic – 1997 – James Cameron

O que é o cinema e as artes senão a reprodução da beleza que encontramos na realidade e na imaginação? Existem tantas e tantas cenas magníficas que o cinema proporciona. Existem diálogos emocionantes capazes de nos oferecer uma gama incontável de sentimentos. E toda aquela quantidade de conhecimento que será impossível de adquirir, se torna menos importante do que o conhecimento conquistado, pois você jamais poderá experimentar os sentimentos de algo que não viveu, mas as experiências vividas com a beleza da vida sempre serão relevantes e não cairão no esquecimento. Os filmes causam isso. As artes são capazes desse efeito. Os artistas são agentes mais do que importantes para que possamos ver toda poesia que há na nossa vida, mesmo que por instantes, mesmo que esporádicos, serão todos esses momentos que ao final da vida serão lembrados e será uma garantia de que a vida valeu cada um desses momentos.