dom, 11 de abril de 2021

Jornal A Plateia Digital - 03.04.2021

Última Edição

O TRÂNSITO E A COVID-19

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Hoje os assuntos que irei apresentar serão um tanto chatos, acho que não irei arrancar nenhum sorriso dos lábios de meus leitores.  A crônica estará recheada de números, dados e informações, fundamentais para referendar minha opinião e comentários. Aliás, penso que sempre deveria ser assim, fundamentar nossas opiniões com fatos. Sejamos pacientes, não só com o cronista, mas com o momento em que vivemos…

Começo falando de acidentes de trânsito, um dos acontecimentos que mais ceifam vidas mundo afora e no Brasil não seria diferente. Segundo o Instituto de Pesquisas Avançadas, o IPEA, entre 2007 e 2018 perdemos, somente em estradas e ruas brasileiras, quase 480 mil vidas. E, se somarmos os números de 2019 e 2020, passaremos com folga de meio milhão de almas que anteciparam seu encontro com o paraíso, com o inferno ou com o nada, dependendo da crença que cada um cultiva.

Não sei se vocês já foram no dicionário conferir, mas sabem o significado da palavra acidente? No Houaiss, um dos dicionários mais tradicionais, de onde o google copiou a definição, acidente significa “acontecimento casual, fortuito, inesperado” dentre outras definições. Será?

Trabalho com o trânsito faz tempo. Por muitos anos fui um dos responsáveis pela minha “firma” (como chamo carinhosamente a PRF) para informar a mídia e realizar alertas visando a prevenção de acidentes. A experiência de quase três décadas atuando nessa área me mostrou que a maioria absoluta das ocorrências de trânsito poderiam ser evitadas.

Em palestras educativas afirmo que 105% dos acidentes são responsabilidade humana. Não sou craque em matemática, mesmo assim sei que o número é irreal, mas gosto dele pela sua simbologia. Afinal, o tal de humano poderia evitar os buracos e a aquaplanagem se andasse mais devagar nessas condições. Esse mesmo humano poderia parar, caso sentisse cansaço ou sono. O cidadão, humano que é, saberia que é necessário revisar seu veículo periodicamente, evitando panes mecânicas. Sem contar o pedestre, o ciclista e o motociclista, andarem com atenção quintuplicada, já que humanos, saberiam que são mais frágeis que aqueles que estão dentro de um veículo.

Atitudes simples, que salvam vidas. Frase clichê, mas extremamente verdadeira. Podemos depreender de tudo isso que podemos evitar esses “acidentes”, não concordam? Porém, mesmo com menor circulação de veículos em rodovias devido à pandemia, a redução de mortes foi pequena, proporcionalmente falando. Aliás, mal começamos 2021 e já temos um incremento nos números de mortes no trânsito. Por quê?

Não tenho todas as respostas, mas penso que posso fazer uma analogia, partindo de uma outra pergunta sobre outro assunto angustiante: por que em meio a uma pandemia mundial temos tantas pessoas ignorando os alertas e não tomando os cuidados necessários?

Em 12 anos perdemos meio milhão de vidas em acidentes de trânsito, vidas que poderiam ser poupadas se tivéssemos um pouquinho mais de cautela, paciência e atenção no trânsito. Agora, se pensarmos que em 12 meses, não em 12 anos, perdemos a metade desse número absurdo, se lembrarmos que 270 mil vidas foram ceifadas pela covid-19 antes de encerrarmos a primeira semana de fevereiro desse ano, não acham que deveríamos ficar extremamente preocupados?

Mesmo assim, sei que muitos ainda dirão que não é para tanto alarme, por isso, apresento outros números. No site oficial do registro civil brasileiro, aquele em que todos os nascimentos e falecimentos são registrados, tivemos entre 2018 e 2019 um aumento de 5% no número de registros de pessoas mortas. Em 2020 se comparado com 2019, tivemos 15% de aumento.

Esses números não dizem nada? Será que não temos provas suficientes de que essa pandemia existe e seus efeitos atingem a todos? Como diz o ditado popular, contra fatos não há argumentos! Porém, estamos no Brasil, e negar fatos é uma arte praticada há muitas gerações. Alguns respondem que são imunes, não importando se tem 18 ou 81 anos. Contudo, aqueles que fazem festa ignorando o fato de que os hospitais estão rejeitando pessoas doentes por falta de espaço, considerando que eles mais que dobraram suas capacidades no último ano, esses agem com escárnio, para dizer o mínimo.

E agora, que estamos aprendendo um pouco mais sobre esse vírus, que recebemos algumas poucas vacinas, vimos que ele é muito malandro. Arrefece seu efeito por um tempo, o povo ignora os alertas, aglomera de novo e… pimba! Centenas, milhares de pessoas contaminadas, muitas morrendo sem conseguir respirar…

Falei muito em números porque eles são importantes, mas consciente que não são somente estatísticas. Como policial, sempre foi terrível atender ocorrências com morte. Contudo, comunicar um pai, uma mãe ou um parente sobre o ocorrido, ver sua reação de descrença no primeiro momento transformar-se em desespero ao ter consciência que perdera para todo o sempre um ente querido, isso sim era desolador.

Por empatia, que falta para muitas pessoas e alguns governantes, me coloco no lugar dos médicos e dos agentes da saúde. Há um ano eles comunicam diariamente sobre as mortes provocadas por esse vírus, mortes que, como as milhares que ocorrem ano após ano em nossas estradas, também poderiam ser evitadas. Tudo depende de uma mudança de comportamento minha, sua e de todos que nos cercam, que a sociedade adote uma postura segura, obedecendo os protocolos de segurança, tanto dirigindo, quanto diante dessa pandemia que já se alongou demasiadamente por nossa humana irresponsabilidade…

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