seg, 25 de janeiro de 2021

Aplateia Digital - 23/01/2021

Última Edição

UM VIVA AO XADREZ

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Buenas,

 

O xadrez está voltando a moda, vejam vocês! Ou, ao menos, discutir sobre o assunto está em voga nas rodas digitais. O esporte praticado quase que exclusivamente por intelectuais até meados de 1990, voltou a ganhar comentários virtuais nesses últimos dias e o motivo é, novamente, uma série veiculada em canal de streaming.

Os meus parcos leitores já sabem que eu não gosto de utilizar estes termos em inglês, inclusive, outro dia errei a grafia de uma palavra, mesmo consultando-a previamente! Ocorre que essa é difícil de traduzir. Resumidamente, é o modo como chegam até nós os canais pagos, tanto por celular, tevês, computadores e tablets.

Não sou especialista em cinema, há colunistas bem mais qualificados na sétima arte do que eu. Porém, quando algo é diferenciado e me chama a atenção, não há como resistir a alguns comentários literários e sobre a vida, que é minha seara.

Quem assistiu “O gambito da rainha” sabe do que falo. Em menos de um mês na Netflix, causou um pequeno tornado nas redes, sendo a série mais assistida em mais de 60 países e fazendo com que o livro que deu origem à série voltasse a lista dos mais vendidos do jornal New York Times. Detalhe: 37 anos depois da publicação da obra…

A série não segue a regra de sucesso da atualidade com heróis, tiros, sangue e explosões. Daria para resumir seu roteiro assim: uma órfã que aprende xadrez no internato com o zelador e demonstra ser um fenômeno no assunto, competindo com os melhores do mundo. Um assunto fora de moda e bem simples, né? Porém, o simples, algumas vezes, pode ser bastante complexo.

Para começar, a história soube ser interpretada. A atriz principal é uma pequena preciosidade. A Anya Taylor Joy já tinha apresentado suas credenciais em outros filmes, como “Fragmentado”, que recomendo com ênfase. O diretor de fotografia enquadrou a câmera, na maioria das cenas, sobre a atriz e o tabuleiro de xadrez. Com isso, manteve o foco nos seus gigantescos olhos “oblíquos e dissimulados”, como outrora devem ter sido os de Capitu. Porém, uma diferença básica entre elas, é que, certamente, a menina brasileira era bem mais alegre que Beth, concentrada e sisuda, mas não chegava a ser casmurra, para manter as referências literárias.

E uma boa história começa com bons panos de fundo bem costurados. A morte da mãe, viver no internato, uso de remédios sem prescrição médica, alcoolismo, falta de grana, dificuldade de fazer amigos, além da questão política, fazem a trama crescer. No período em que a história se passa, a Guerra Fria está vigente e a tensão impera em todos os campos em que os EUA e URSS competiam. No xadrez não seria diferente, com a balança pendendo com força para o lado russo.

Na série, o crédito à supremacia russa no xadrez era não só devido a genialidade individual, mas também ao jogo em equipe. Também havia outro motivo. Os russos, com todos os defeitos do seu sistema político, e eram muitos, tinham uma virtude: davam grande ênfase à educação. Com ela, o treinamento de qualquer atividade esportiva vinha embutido. O mote latino “Mens sana in corpore sano” não era dito ao vento. A mente e o corpo saudáveis são conquistados exercitando.

Até meados dos anos 1990, o xadrez era um jogo que movimentava competições internacionais, dando renome mundial aos seus grandes campeões. Lembro de, quando adolescente, acompanhar a carreira de Garry Kasparov, o primeiro a enfrentar um computador, o “Deep Blue”, criado pela IBM em 1996. E o russo venceu, na primeira contenda. No ano seguinte, o computador voltou mais preparado, além de contar com suspeito apoio humano. Até nisso houve suspeitas de corrupção, vejam só!

Não deu para ele, como não deu para mim, quando tentei encarar uma competição de xadrez. Devia ter meus 12 ou 13 anos, memória já está ficando com falhas nas datas, mas garanto que foi nessa transição inicial da adolescência, quando testamos nossos limites, para delimitar terreno. Enfrentei uma menina na primeira rodada. Ela não tinha o olhar de Beth, mesmo assim, encarei-a com certa insegurança juvenil. Com bravura, conquistei a minha primeira vitória! E a única…

Nunca mais competi, talvez porque não tinha talento, talvez porque acabaram os campeonatos. Porém, acho que o real motivo é outro. Após o computador da IBM superar Kasparov, os computadores dominaram nossas vidas. Um exemplo disso, aconteceu com os jogos de tabuleiros, tão comum em minha infância, que deram lugar a computadores. Neles até podemos jogar xadrez, mas não é a mesma coisa, não tem a mesma emoção.

Com a demanda cada vez mais gigantesca por jogos virtuais, é uma lástima ver que os passatempos que moldaram nossas mentes e corpos estão abandonados em armários, se ainda não foram descartados. Não foi só o kasparov que foi derrotado para o Deep Blue, fomos todos nós.

Apesar disso, motivado pela série, vou tirar o meu tabuleiro de xadrez do armário e exercitar a mente. Quem sabe, posso trocar olhares com algum adversário desafiador, tentar “ler” suas próximas jogadas em sua expressão facial ou atitude corporal. Duvido que algum computador reproduza os olhares de Beth, nem poderá dizer que valeu a pena ser derrotado, como falavam seus adversários quando a cumprimentavam após a partida, com um simples, singelo e humano aperto de mãos…

 

Alessandro Castro

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