Um cronista do século 20

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Não tinha 20 anos e devorava afanosamente os romances, contos e crônicas do escritor italiano Dino Serge (1893-1975), conhecido nos meios literários pelo seu pseudônimo de Pitigrilli. Este escritor, nascido em Turim, na Itália, teve que se refugiar em Buenos Aires em decorrência da perseguição aos judeus, na década de 30.
Pitigrilli, assim como tantos outros italianos que tiveram que se expatriar na Argentina pela mesma razão, logo encontrou um campo fértil no meio da intelectualidade local, para continuar exercendo a atividade de escritor e mantendo colunas jornalísticas, publicadas por diversos jornais de todos os quadrantes.

Pitigrilli era diferente e inimitável, era sarcástico e irreverente, buscava nas experiências do cotidiano tirar as suas ilações e sobre elas desenvolver o seu racionalismo, fundado no conhecimento das peculiaridades de cada região e de cada sociedade. Ele identificava as idiossincrasias de cada povo e sobre elas armava os seus contos, suas novelas e suas crônicas publicadas diariamente nos jornais, ridicularizando e satirizando determinados conceitos sociais que são plasmados, como se verdades eternas e inequívocas fossem.

Quanto às crônicas, entre tantos outros, relembro O Sexo dos Anjos. Na edição brasileira da Editora Vecchi (1955) ficou registrado na orelha da capa o seguinte texto: “neste novo livro do vigoroso escritor constituirá um atrativo para todos aqueles que em nossos tempos são agitados, sentem a necessidade de associar deleite mental da leitura a uma profícua ginástica do senso ético, exercitando-o sobre todas as coisas e fatos de nosso mundo”.
Da sua produção de cronista salientam-se os livros como O Cinto da Castidade, O Umbigo de Adão, A Necessidade de se Iludir, O Homem que Inventou o Amor, Os Vegetarianos do Amor e tantos outros. Em uma de suas crônicas-conto faz o elogio ao garçom como um ser superior que sempre nos olha de cima para baixo prazerosamente nos confortando. Eis um tópico desta crônica:

“O garçom é o trabalhador que tem a ciência mais enciclopédica da vida. Conhece o valor do político e da atriz, prevê as oscilações do câmbio, advinha que cavalo ganhará a corrida, vê com olho clínico os cuidados requeridos por um estômago precário e tem sempre a mão a sentença filosófica para levantar o moral, a pitada de bicarbonato para neutralizar a azia, o talco para tirar a mancha da gravata. E, se o aperitivo se derrama num par de calças novas, o garçom, estribado em sua autoridade e experiência, garante que o aperitivo não mancha. O garçom é um distribuidor de otimismo. Sabe filtrar entre os ‘dizem’ contraditórios o mais verossímil”.
Outro conto inesquecível de Pitigrilli é aquele no qual ele narra com requintes de detalhes e ironia todos os gastos e preparatórios que a burguesia fez para estar apta, a fim de participar de uma estrondosa festa beneficente com recolhimento de donativos e leilões em prol dos pobres desvalidos, que receberão as migalhas que sobrarem daquela abastança. Inclusive algumas madames se esquecerão de pagar a conta da costureira, que confeccionou os vestidos que foram elogiados na festa.