Estádio João Martins vai a leilão pela segunda vez em menos de cinco anos

A estrutura está avaliado em R$ 5 milhões

Recentemente foi anunciado um novo leilão que terá como principal oferta o imponente estádio João Martins, casa de um dos clubes de futebol mais tradicionais do Brasil, o Esporte Clube 14 de Julho. Com o bem avaliado em R$ 5 milhões, o pregão está previsto para acontecer no dia 25 de março e será realizado com o intuito de liquidar uma série de dívidas do clube com a União.
Em novembro de 2017, outro certame já havia sido anunciado por conta dos mesmos motivos, porém, após a intervenção da comitiva de vereadores e autoridades da cidade, que foram até Porto Alegre pedir a suspensão do processo, o leilão não aconteceu.

De acordo com informações repassadas por fontes ligadas à administração do clube, o passivo com a união chega a R$ 400 mil que, se somados às outras despesas, chegam à cifra de R$ 1,5 milhão.
A Reportagem do jornal A Plateia procurou Mercedes Cunha, atual dirigente do Leão da Fronteira, como é conhecido popularmente pelos seus aficionados. Em uma breve conversa, Mercedes informou que não irá se manifestar oficialmente acerca do leilão, mas disse que o departamento jurídico do clube está trabalhando contra o tempo para evitar que o estádio seja efetivamente leiloado.
O edital do remate anuncia os mais de 15 mil metros quadrados de área que as instalações do clube ocupam no bairro Divisa, considerada área central de Sant’Ana do Livramento, além disso, também estão listadas as arquibancadas, camarotes, vestiários, sala de musculação e também a piscina térmica de 25×12,5m e toda a sua estrutura de caldeiras, banheiros e sauna seca. O lance inicial é de R$ 2 milhões e 600 mil.

Fundado há 117 anos, em 14 de julho de 1902, o Leão da Fronteira ostenta o título de terceiro clube mais antigo e também de primeiro time no Brasil a adotar as cores vermelho e preto ao seu uniforme. Entre tantos feitos, o 14 também entrou para a história como sendo o primeiro clube brasileiro a vencer uma competição internacional, quando em 1906 sagrou-se campeão da Copa La France, disputada no Uruguai.
Demonstrando toda a sua pujança e relevância ao nível nacional, o Leão também foi o primeiro clube gaúcho a ceder um jogador à Seleção Brasileira. O quatorzeano que vestiu a verde e amarela foi Cipriano Silveira, conhecido como Castelhano. A liberação aconteceu em 1920, quando o Brasil foi até Viña del Mar, no Chile, para disputar a primeira edição do torneio Sul-americano de Futebol.
Com uma iminente ameaça aos mais de cem anos de glórias e conquistas, nós fomos atrás de pessoas que possuem alguma ligação com o clube para entender melhor qual seria o tamanho do prejuízo histórico e cultural à comunidade santanense, caso o Leão da Fronteira seja efetivamente vendido durante o leilão.

Filho de Rosauro Alves de Oliveira, presidente do clube em 1954, o engenheiro Richard Oliveira conta que já nasceu torcedor do rubro negro. “O meu primeiro presente, quando nasci, foi uma camiseta do 14’’.
Além do presente, o torcedor conta que a paixão pelo clube só aumentou graças ao exemplo do seu pai. “O amor que ele tinha pelo 14 de Julho era algo absurdo. A vida dele era toda ela em torno do clube. […] Por ele ter sido presidente, tive oportunidade de acompanhar algumas partidas históricas e a gente acaba criando esse amor pelo clube’’, revela.

Com um pavilhão batizado sob o nome do seu pai, Oliveira fala que a sua história e a do clube possuem uma ligação muito grande e que, caso o clube seja efetivamente vendido em um leilão, uma parte de sua vida irá junto. “Um dano irreparável. É um absurdo que esse tipo de coisa venha acontecer. Eu torço para que não aconteça. Que venha alguma liminar, alguma coisa. Com certeza o sentimento seria de luto’’, pontua.
Quem também lamenta muito a situação atual em que o clube se encontra é Júlio Batisti que, além de ex-atleta, também possui passagens como dirigente e técnico do Leão. Embora preocupado, Batisti pondera: “Na minha visão, eu não acredito que terá algum lance de algum empresário ou investidor de Livramento. Não acredito que alguém daqui vai correr o risco de ser o responsável por acabar com o patrimônio dessa instituição centenária com uma rica história’’.

Durante a sua carreira, o jornalista esportivo Sidnei Silva, popularmente conhecido como Sideco, ficou responsável por trabalhar como setorista do 14 de Julho ao longo de quase uma década. Por ter criado fortes laços com o clube, Sideco avalia o leilão como uma inestimável perda. “Se viesse a acontecer não seria uma perda só pra Livramento, mas sim pra o futebol gaúcho e até pra o futebol brasileiro”, pondera.
Sobre a importância da instituição, o jornalista relembra: “O 14 de Julho é um patrimônio histórico. O estádio João Martins representa o início do futebol no país. Hoje, o mesmo futebol, representa o Brasil no mundo todo por toda a sua história e tudo isso está representado aqui”.
Perguntado a respeito de quem seria a responsabilidade do clube estar nesta situação, Sideco avalia: “Esse momento já foi vivido outras vezes e todo mundo tem um pouco de culpa. O torcedor tem um pouco de culpa. Todo mundo”.

Grupo Aplateia