Produtor que perdeu mais de mil animais em 2001 com foco de aftosa alerta:

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“É preciso cuidado e esforço de todos, para a retirada da vacina”

“Foi uma coisa muito triste de ver. Lembro do dia do abate, os animais sendo mortos com um rifle sanitário, andavam uns passos e depois caíam no campo. Enquanto isso duas retroescavadeiras abriam duas enormes valas no campo, onde foram enterrados 108 animais. O cemitério está lá até hoje”, disse o produtor rural Orlando Martins, proprietário da Cabanha Retiro, situada na região do Sarandi, em Sant’Ana do Livramento, onde em 2001 foi registrado o último foco de febre aftosa do Rio Grande do Sul. Com os olhos marejados, como se as cenas do passado cruzassem em sua frente, o olhar e a voz embargada pelas tristes lembranças, o produtor conversou com a reportagem do Jornal A Plateia nesta semana. Para ele, o Estado ainda não está pronto para retirada da vacinação, por uma questão de sanidade com os países vizinhos. O ano era 2001, na fronteira do Brasil com Uruguai, nos campos do Sarandi que fazem divisa com Rivera e Artigas, uma recorrida em um dia de campo deu o sinal que algo não estava bem com os animais. “Eu estava no campo fazendo uma recorrida. Quando avistei dois animais babando, com a língua de fora e de cabeça baixa. Nós apartamos esses animais e fizemos a coleta, veio o exame positivo para aftosa.

O vírus veio do Uruguai, o foco inicial foi em Artigas, surgiu em porcos e em uma leiteria pelo que se sabe. Como a nossa propriedade, Cabanha do Retiro, fica a 700 metros da fronteira nossos animais foram infectados. Inicialmente foram identificados 108 bois de uma das nossas invernadas sob suspeita, 58 animais deram positivo. A partir daí a propriedade foi interditada e começaram os abates. Além do problema sanitário que virou notícia em todos os meios de comunicação do país, e também fora, a família Martins viu ali naquela época parte da produção de mais de 30 anos de seleção da raça Texel quase ser extinta, pois o rebanho ovino de mais de 850 animais precisou também ser sacrificado. Incluindo 200 ovelhas registradas na Associação Brasileira de Ovinocultores, e animais premiados em exposições como a Expointer. “Tiramos uma foto até, da gente na frente da propriedade olhando os caminhões indo embora com nossos animais para serem abatidos. Uma cena muito triste. Mais de 30 anos de genética selecionada. Dessas, 250 ovelhas eram registradas. Ao matarem esses animais quase que terminaram com a nossa genética, ela só não foi exterminada porque eu tinha mil doses congeladas de um carneiro que havia sido campeão de Esteio e posteriormente consegui adquirir ventres com algum grau de sangue dos animais da Cabanha Retiro. A partir disso, nós começamos a inseminação e recuperamos essa genética.

Operação de Guerra

Uma verdadeira operação de guerra foi montada na sede da Cabanha Retiro durante os meses de agosto e setembro, conforme o proprietário, desde a descoberta do foco de aftosa até o abate dos animais. “Lembro que no dia 25 de setembro saíram 9 caminhões da cabanha carregando o nosso rebanho de ovelhas para o abate. Foi 850 o total de ovelhas, e os bovinos foram em torno de 500 cabeças. Lá na Cabanha Retiro foram abatidos 108 bois com rifle sanitário pelos atiradores da Brigada Militar. Eles atiravam nos animais e eles caíam, alguns ficaram baleados e morreram longe. Eram doze campeiros laçando e atacando bois que dispararam baleados para o campo. Foi um Deus nos acuda. Os animais eram colocados nas retroescavadeiras e levados para a vala.

Faca de dois gumes

Depois de ter passado pelo problema, o pecuarista avalia com cautela a retirada da vacinação que precisa passar por um grande esforço de todos para evitar problemas semelhantes ao enfrentado em 2001. “Se Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai tirarem a vacina e fizerem o dever de casa direto, sendo todo o processo bem fiscalizado, como tem que ser, ainda assim existe o risco. E, hoje, com as condições que nós temos de fiscalização, eu sou a favor de continuar com a vacina porque ela protege o rebanho. Lembro, por exemplo, de um fato que aconteceu naquela época, quando aqui estiveram alguns veterinários de São Paulo e Minas e disseram que gostariam de verificar a situação de animais que estavam em uma invernada de gado de cria e os terneiros que não haviam pegando o período de vacina. Esses animais estavam em um campo ao lado dos bois contaminados. Eles olharam os terneiros sem vacina e fizeram os exames e não havia nenhum contaminado. Então, a conclusão que os veterinários chegaram é que os terneiros tinham sido imunizados pelo leite das vacas, que haviam sido vacinadas. A vacina é boa, ela realmente protege os animais se bem aplicada e controlada. Acredito que nós ainda não estamos prontos para essa retirada. Seria um risco enorme”.

Casos

Em maio de 2001, após um surto da doença que atingiu 18 dos 19 departamentos do Uruguai, a aftosa retornou ao Rio Grande do Sul por Sant’Ana do Livramento, na fronteira com o país vizinho, e se alastrou pelos municípios do Jari: Alegrete, Quaraí, Dom Pedrito e Rio Grande, no sul do Estado. Na ocasião foram registrados 30 focos e dessa vez a opção foi pelo retorno da vacinação. O surto foi considerado extinto em julho daquele ano, mas as campanhas de imunização foram mantidas até agora.

Javali transmissor da doença

Segundo o pecuarista existe outra grande preocupação com a possível retirada da vacina, por conta da infestação de javalis na América Latina, animal que é transmissor direto da febre aftosa. “Isso é um problema internacional, a guerra contra o javali tem que ser todos os países. Esse animal é um transmissor da doença e ele caminha até 25km em busca de alimento, e se chega, por uma infelicidade, surgir um surto de aftosa e pegar nesses animais. Quem é que segura a contaminação”