A história do casal de mochileiros que viaja acompanhado por um cachorro vira-latas

Aventura da dupla sobre duas rodas começou em abril, quando o casal saiu da Argentina e seguiu até o Rio Grande do Sul

Apoiada em frente ao guidom, a caixa verde que outrora levava frutas e verduras serve de cama para o vira-latas companheiro de viagem. Sem mostrar qualquer vontade de deitar no cesto, Viento corre ao lado das conservadas bicicletas de Tamara Mereles Machado e Alexis Albarin. Rotina desde que o casal adotou — ou foi adotado — pelo cachorro no litoral uruguaio.

— Fizemos amizade com uns mexicanos e, na hora da despedida, demos um cachorro de pelúcia. Eles nos encontraram dias depois e disseram que o brinquedo havia dado sorte, trazendo um cão de carne e osso. Ele nos seguiu e acabamos adotando — explica Tamara, em um espanhol que intercala vocábulos do português.

Porto-alegrense de nascimento, a jovem professora de 27 anos mora na Argentina desde que tinha um ano de idade, quando a mãe foi visitar parentes e decidiu ficar no país vizinho.

O viageiro canino passou a ser atração para quem cruza com os mochileiros. É também o alarme dos que se aproximam da barraca, muitas vezes armada em praças e parques ou sob marquises que ofereçam a cobertura necessária. Segundo Alexis, o mascote corre todas as manhãs na beira do mar, respeita os espaços que não aceitam animais e rola no chão a qualquer sinal de carinho.

— Conquistou o espaço dele e vai continuar com a gente depois que voltarmos para casa —  revela.

A aventura sobre duas rodas teve início em 22 de abril, quando o casal saiu da província de Carmelo, na Argentina — distante mil quilômetros de Buenos Aires — rumo ao Uruguai. Antes disso, as caronas conquistadas à beira da estrada foram a única locomoção. A motivação para a viagem foi o cansaço de trabalhar somente para o sustento.

— Queríamos mudar, sair daquela rotina de trabalhar e pagar conta. Outro fator foi a vontade de conhecer o mundo, mesmo sem dinheiro — explica o argentino.

Com 31 anos, ele se diz apaixonado pela então amiga brasileira desde a infância, quando viviam na província argentina de Misiones. Na garupa, mochilas com algumas roupas, panelas e talheres, além de um fogareiro improvisado, feito a partir de um pedaço de metal que queima com uma pequena quantidade de álcool.

Surpresa para o pai e solidariedade

Tamara divide sua vida em capítulos, destacando biografias distintas: até os 18 anos, sem contato com o pai, Zoé Machado, morador de Canoas, e após o reencontro, quando passou a dividir mensagens e visitas periódicas. Foi a saudade de Zoé que incluiu na rota do casal um desvio pela Região Metropolitana. De surpresa.

— Em Santa Vitória do Palmar, encontramos três caminhoneiros que nos deram carona, deixando a só 5 quilômetros da casa do meu pai. Mandei uma mensagem dizendo “daqui um mês vou te ver”, mas no outro dia já estava lá — relembra, contando que o pai ficou emocionado com o ato.

Funcionário de uma empresa de transporte de valores, Zoé se refere a Tamara como “meu xodó” e se demonstra magoado com a distância que o destino reservou nos quase 20 primeiros anos de vida da filha. Afirmando dividir as atividades na transportadora com composições ao acordeom, mostra com orgulho a música dedicada ao encontro, ocorrido no último final de semana: “Montada na bicicleta, veio então a pedalar. Veio desde Buenos Aires, Tamara me visitar. Diante desta aventura, tenho que comemorar”. Foram mais de 1.000 quilômetros pedalados, até cruzar a fronteira com o Chuí.

Os dois surpreendem ao negar que tenham passado por qualquer situação de perigo nos quase dois meses de pedal. Do contrário, carregam uma série de histórias de solidariedade. No Uruguai, ficaram três dias na casa de um empresário e dormiram até mesmo dentro de de uma igreja. Já no Brasil, ganharam abrigo em um alojamento dos bombeiros de Gravataí —  onde Viento recebeu sua “cama”. Já no litoral gaúcho, um dos pneus furou quando faziam o percurso de Tramandaí para a Estrada do Mar, pela RS-030. O socorro partiu da Brigada Militar.

—  Uma viatura parou do nosso lado e o policial tirou uma foto. Enviou para um “bicicleteiro” e pediu para que fossemos lá. Quando chegamos, ele nos deu um pneu novo, de graça — lembra Tamara, com um largo sorriso.

Em cerca de 30 cidades visitadas, dizem não ter desembolsado qualquer centavo em hospedagem. Desde domingo (16), estão no Hotel Kolman, em Capão da Canoa.

— Quando a gente quer aprender, a vida nos traz essa oportunidade. A primeira coisa que vem à cabeça é julgar e condenar. Mas eles são um exemplo, mostram coragem, atitude de conhecer lugares — justifica Clovis Clasen, 60 anos, proprietário da hospedaria.

O anfitrião ressalta que a dupla ofereceu ajuda na manutenção e limpeza do hotel como forma de pagamento pela hospedagem, mas como o movimento no inverno é baixo, recusou a mão de obra. Com uma série de aplicativos instalados no smartphone, a gaúcha-argentina já conta com hospedagem para o restante da semana, até a cidade de Torres.

Artesanato como sustento e Copa América

Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Parceria de todas as horas Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Quando a ajuda se torna escassa, é à venda de acessórios reciclados que os dois recorrem. O artesanato é chefiado por Alexis, que utiliza tampas de garrafa, pedaços de arame e pedras preciosas de baixo valor financeiro, carregadas no pescoço como um rico amuleto. Os recursos juntados pela mestre em educação infantil — atividade da qual está licenciada de uma escola municipal de Educação Infantil em Buenos Aires pelo período de um ano — acabaram quando estavam na histórica cidade de Colônia, que divide o Uruguai da Argentina pelo Rio da Prata.

— As pessoas acham que tudo que buscamos é dinheiro. Às vezes, uma ducha e um lugar para lavar roupa são mais importantes do que dinheiro — ressalta o artesão, que trabalha como eletricista no país de origem.

Além de visitar o sogro, o argentino conta que o casal desejava ir aos jogos da Copa América. Vestido com a camisa da Argentina, carregando uma bandeira do Brasil na bike, o desejo foi abandonado pelas dificuldades financeiras, somado ao fato de terem chegado à capital gaúcha mais cedo do que esperavam.

No Brasil, os aventureiros pretendem seguir pedalando até a Bahia, roteiro incluído após pesquisas sobre as praias de Morro de São Paulo, famosas pelas piscinas naturais. Ponderam, ainda, que não há qualquer previsão de finalizar a jornada sobre as bikes: “a aventura não tem limite. Não temos ponto final pra viagem” — respondem, em harmonia.

Fonte GauchaZH

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