“Se morrer 5 ou 6 não tem problema, só os parentes irão chorar”

Boa Tarde Cidade (07/01/2019)Apresentação: Rodrigo Evaldt e Valdinei LimaAssista em HD: www.aplateia.com.br

Publicado por Jornal A Plateia Livramento em Segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Ex-secretário de saúde, Sérgio Aragon, faz fortes revelações sobre Governo Municipal

Durante o programa Boa Tarde Cidade da RCC FM, em entrevista ao radialista Valdinei Lima, o ex-secretário de saúde, Sérgio Aragon, fez fortes revelações sobre os bastidores da administração Municipal. Confira os principais trechos da entrevista e declarações do ex-secretário.

Aragon começou falando da sua decepção com relação à gestão e citou uma frase que ele teria dito ao prefeito Ico durante uma reunião: “enquanto as pessoas estiverem apenas reclamando de buracos na rua, ainda é melhor do que as pessoas reclamando da falta de saúde”. Aragon disse que sempre priorizou a saúde e estas divergências foram se avolumando e destacou: “Houve um desgaste com o centro da gestão do município, por conta de alguns interesses”.

Aragon ainda disse: “Em 2018 veio um pedido para retirada de três milhões do orçamento que seria aplicado na Saúde para fazer asfalto, daí não concordei, e tive apoio do Conselho e Servidores da Saúde. Eu tranquei o pé. Este episódio pode ter sido o início das discussões. Recurso da saúde é da saúde, a secretaria de obras são outros projetos. Depois a gente conseguiu convencer”, falou.

O repórter perguntou: “O senhor estava num bom trabalho, o que aconteceu para bater de frente?

Aragon confirmou que houve sim conflito de interesses. “Pude contribuir com o que fiz, trabalhando em equipe. O gestor tem esta função de motivar, focar nos servidores, tem que ser humano, plantar todo dia, na saúde são 580 servidores. Recuperarmos os 52 veículos quando só 12 funcionavam e estamos recebendo mais veículos (seis sedans, um micro ônibus, duas caminhonetes fazemos o transporte de 800 pacientes/mês”, disse.

Aragon disse isto falando que nos dois anos de trabalho prezou pela eficiência e preocupação com a gestão da saúde, mas fez uma triste revelação:

“Um secretário numa reunião disse: – Olha, não tem problema, (‘talvez assuma, inclusive a saúde’ disse Aragon) não tem problema se morrer cinco ou seis na porta do Pronto Socorro, só vão chorar os parentes, nós temos que ter dinheiro para fazer asfalto, é isso que as pessoas querem”. Frase teria sido dita durante uma reunião com secretários.

Aragon seguiu: “Este é o conceito de gestão, de humanização da gestão? Porque se a pessoa fala isso, ela pensa isso, e se ela pensa isso ela opera isso. Eu não posso pactuar com este tipo de pensamento” afirmou.

Processo de Seleção e pressões

Aragon aformou que teve um processo de seleção altamente transparente, mas lamentou que algumas pessoas tenham tentado ‘burlar’ o processo seletivo:

“Mesmo que eu tenha recebido vários indicativos, pressões e recados, bilhetes para colocar o ‘joão’, o ‘pedro’, na frente da ‘maria’ e do ‘gustava’ não posso pactuar com isso”.

O repórter enfatizou com a pergunta: O senhor recebeu isso?

Aragon respondeu: “Com certeza, mas o processo seletivo é altamente transparente, solicitei ao Controle Interno para fazer uma Auditoria e muitos indicados não vão continuar, porque é preciso ter qualidade técnica. – Tentaram cancelar o processo seletivo algumas vezes, mesmo com a transparência. E o cancelamento certamente favoreceria alguém e não seriam aqueles que tem maior capacidade técnica” disse.

Mais uma vez durante a entrevista, Aragon disse que esta e uma série de outras questões o desgastaram a frente da saúde e informou que está fazendo uma Carta sobre temas pontuais.

“Estou fazendo uma carta para o Conselho de Saúde, o Controle Interno e a Câmara de Vereadores. Não estou denunciando nada, mas apenas colocando questões pontuais de gestão”.

OSCIP também iria assumir a saúde em Livramento

Aragon revelou que a OSCIP que hoje opera a Educação, seria inicialmente também responsável pela saúde, mas ele teria se manifestado altamente contra, por entender que seria prejudicial para o Município, confira: “A OSCIP seria primeiramente para a saúde. E não tem problema, as OS são uma realidade, só em Porto Alegre são 20 operando, então não tem problema, mas com  algumas condições. Tem que ser licitado, não pode ser contrato de gaveta num gabinete. Outra coisa que discordei, a taxa mínima de 20% de administração, então, nós aplicamos em torno de R$ 350 mil reais/mês com contratação de médicos, dentistas, profissionais médicos e isto passaria para quase 600 mil com a OSCIP” revelou Aragon.

Em seguida Aragon fez uma explanação de como funcionaria o contrato com a Saúde que foi apresentado, aqui ele usou um exemplo sobre o pagamento:

“O contrato seria porteira fechada, então, um contrato de R$ 500 mil que diz que tem que contratar 30 médicos, 20 dentistas, etc, mas se o quadro estivesse incompleto, a Prefeitura continuaria pagando. Então, se eu tenho capacidade de contratar 30 médicos, mas só consigo contratar 20, eu continuo pagando 10 sem usar. Aí está a grande questão que não concordei, este contrato faria muito mal para o município, e acho que na Educação também não gerava economia, mas eu não conheço o contrato com educação” falou.

Aragon fala em gestão perseguidora

Mais uma vez o ex-secretário de saúde lamentou a gestão e a relação com a administração: “Então esta falta de entendimento em torno do gestão central, ele é muito perseguidor, atropelador”. Na entrevista gravada e que está no Facebook, Aragon demonstrou incômodo com o tema e preocupação também com o  orçamento para este ano:

“Eu tenho receio quanto ao orçamento deste ano, 2019, porque a maioria seriam de recursos vinculados, então este grupo, este núcleo, inclusive com o próprio Planejamento, que eu esperava um entendimento maior e não teve, que os recursos da Saúde são recursos separados. São para aplicar em saúde. São recursos vinculados à Secretaria de Saúde. Eles não podem enxergar este recurso para tapar buraco, para pagar OSCIP, então, os recursos da saúde foram retirados de ‘dotação’ não do financeiro, ou seja, vai chegar o recurso financeiro, mas tu não vai ter dotação orçamentária para aplicar este recurso a partir de julho de 2019. A partir de julho tu não tem dotação para repassar recurso para a Santa Casa, por exemplo. Não vai ter dotação para repassar valores que não são do município, estes são recursos federais. Então, em julho vai ter financeiro nas contas,  mas por falta de dotação não vai ter como passar dinheiro para a Santa Casa e pagar tantos outros prestadores de serviços, isto porque este entendimento medíocre que – tu tendo esta dotação lá nas obras tu vai ter este dinheiro – e tu não vai ter, só vai ter a dotação, isto porque a verba é vinculada”. Aragon referia-se a previsões de gastos de recursos da saúde que teriam sido repassados para outra secretaria, mas que serão impossíveis de serem usados porque o dinheiro que vem do Governo Federal é verba vinculada e só pode ser aplicado na saúde.

Perguntando sobre quem teve a ideia, respondeu: “isso é um contexto geral de quem está fazendo o orçamento. Eu notifiquei o Prefeito, o Planejamento e o Secretário Geral de que o que eles estavam fazendo vinha contra a Administração Pública” frisou Aragon e seguiu: “Então, estas coisas tu cansa tentando explicar e para quem não quer ouvir, e tem outros interesses e a saúde não é prioridade, tu acaba vendo a realidade”.

Pergunta: O senhor sai magoado?

Aragon respondeu: “Não podemos ter mágoa daquilo que a gente escolheu. Eu tenho a satisfação de dizer que a coligação (PDT e PSB) foi feita dentro da minha casa. Ficamos meses se preparando para debates, com formação de plano de governo e da forma mais democrática possível, porque esta é a visão do PSB, do valor humano, porque o PSB valoriza mais as pessoas do que o asfalto propriamente. Eu prefiro ver as pessoas atendidas na saúde e ter buraco na rua. O buraco a gente desvia, mas se não tem médico, não tem como desviar disso”, destacou.

Por fim o ex-secretário agradeceu aos servidores da saúde e aos amigos que trabalharam juntos nestes dois anos. “Todos trabalhamos dia e noite para fazer o melhor possível e o resultado é o respeito e o retorno da comunidade” finalizou.

Confira o vídeo com a entrevista abaixo.

Enrique Civeira (PDT) assume Secretaria de Saúde com saída de Sérgio Aragon do PSB – FOTO ARQUIVO A PLATEIA

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